Se há um aspeto da gestão autárquica em Portugal que nunca vi com bons olhos é a tendência generalizada para os municípios gastarem, todos os anos, centenas de milhares ou mesmo milhões de euros em festas, festivais, romarias, concertos, congressos e outros eventos de curta duração.
Não defendo que estes eventos deixem de existir. Têm o seu valor cultural, social e económico. No entanto, considero que, em muitos casos, o seu peso no orçamento municipal é desproporcionado, sobretudo quando continuam por resolver necessidades básicas e investimentos estruturantes.
Uma obra pública permanece durante décadas, por vezes durante um século ou mais, gerando benefícios contínuos para a população. Um evento termina ao fim de poucos dias. O seu impacto pode ser relevante, mas é, por natureza, temporário.
Beja não é exceção. Todos os anos são investidas quantias muito significativas em eventos, recursos que, inevitavelmente, deixam de estar disponíveis para concretizar obras essenciais para toda a comunidade. Para ilustrar esta reflexão, basta comparar dois exemplos recentes.
Skatepark de Beja

FONTE: A-PARK
- Investimento de cerca de 375 mil euros, com uma vida útil de várias décadas.
- Benefício para milhares de jovens e adultos.
- Um equipamento moderno, de grande dimensão e único no distrito de Beja, reforçando a centralidade da capital de distrito.
- Promoção da prática desportiva e de estilos de vida saudáveis.
- Capacidade para atrair visitantes durante muitos anos, gerando movimento na cidade e contribuindo para a economia local.
Patrimónios do Sul

FONTE: CÂMARA MUNICIPAL DE BEJA
- Investimento de 500 mil euros (fonte: Grandes Opções do Plano e Orçamento de 2025, página 95).
- Um evento com duração de apenas quatro dias.
- Recebeu alguns milhares de visitantes durante esse período.
- Atraiu visitantes de fora do concelho, mas apenas enquanto decorreu a feira.
Naturalmente, não se trata de comparar diretamente um skatepark com uma feira. O ponto essencial é outro: quando se somam os custos anuais de festas, festivais, concertos, congressos e outros eventos, chega-se facilmente a vários milhões de euros de despesa. Uma parte significativa desse montante poderia ser canalizada para investimentos permanentes, capazes de melhorar a qualidade de vida da população durante décadas.
Quantas passadeiras continuam por pintar? Quantas caldeiras permanecem sem árvores? Quantos buracos existem nas estradas e nos passeios? Quantos parques e jardins carecem de manutenção? Quantas escolas e edifícios públicos continuam sem ar condicionado ou sem as condições mínimas de conforto?


